É comum, na dinâmica escolar, situações de mordidas entre as crianças pequenas. Na tentativa de ajudá-los a entender essas manifestações, trazemos este texto sobre características da faixa etária, o contexto em que acontecem as mordidas e qual é a postura da Escola Bosque das Letras em relação a elas.

Porque aparecem as mordidas entre as crianças de 1 e 3 anos?

Entre 1 e 3 anos, a criança ainda tem na sua boca uma das grandes fontes de descobertas. Do brinquedo à pedra, passando pela chupeta, tudo ela leva à boca para experimentar e para dela retirar sensações diversas. Chupar, morder, sugar, degustar, emitir sons, inspirar e expirar são ações que dão prazer e estão ligadas à fase da oralidade já que a boca é por onde a criança pode relacionar-se com o mundo externo.

Os dentes que estão despontando na gengiva coçam e afligem a criança nesta fase. Outro fato a se considerar é que as crianças até 3 anos se frustram com facilidade e têm pouco controle sobre seus impulsos.

No entanto, considerar somente essas características é pouco. É preciso olhar com atenção o contexto em que vive a criança. O próprio fato de ingressar na escola traz consigo vários desafios de adaptação como, por exemplo, sair de um ambiente familiar e seguro para outro ambiente mais amplo e desconhecido. Tanto o aluno como seus pais estão à procura de uma abertura para mudanças, mas certa ansiedade em relação ao novo sempre aparece.

Dentro da rotina da escola, em quais momentos aparece a mordida?

Para as crianças desta faixa etária, compartilhar ainda é difícil. Já que o outro não é percebido como diferente delas próprias. O outro só existe em função do seu desejo. Na hora da disputa por algum objeto ou pela companhia de alguém, aparece o conflito seguido da sensação de perda. O desconforto desse sentimento é algo que ainda não pode ser compreendido e, na ânsia de livrar-se dessa situação, agem rapidamente usando seu corpo. O corpo é aquilo que lhes é mais conhecido, sobre o que têm algum controle e a boca, o foco de sua expressão. Num instante, acontece uma mordida.

Mais raramente, pode ocorrer de alguma criança ficar muito cansada ou com sono e, também diante desse desconforto, irritar-se e morder.

Há também a mordida como manifestação de contato. Quando começam a despertar para o fato de que existem outras crianças, quando vão se conhecendo melhor e criando vínculos, aparece uma mistura de união e empurrão, beijos e abraços apertados, com mordidas e beliscões. Não podemos esquecer que muitos pais dão pequenas mordidas nos filhos como forma de carinho (o que pode favorecer negativamente a ação da criança começar a morder).

A reação do outro é também algo que estão explorando e experimentando. Muitas vezes são surpreendidos por esta reação por não terem a real dimensão da dor provocada. É comum ficarem assustados, e chorarem também, junto com o outro.

Morder é sinal de agressividade?

Na maioria dos casos não há intencionalidade ao morder, ou seja, a criança não planejou a ação. Como já foi dito, a mordida pode ter saído de um abraço apertado ou como forma de aliviar um desconforto do momento. Porém, a mordedura é a primeira pulsão agressiva das crianças e pode estar representando uma zanga, um ciúme ou uma auto-afirmação. Como nesta faixa etária ainda não conseguem dosar sua força ou até seus impulsos, às vezes podem assustar os adultos.

O processo natural de desenvolvimento

Podemos entender a mordida como forma de expressão da criança, para conseguir o que quer. Usar uma força interna para conseguir algo por conta própria, faz parte do desenvolvimento infantil. Com essa compreensão, cabe ao adulto mostrar as formas socialmente aceitas como alternativa para essa manifestação. Em especial, através da linguagem verbal. Nessa fase do desenvolvimento, o pensamento da criança é mais rápido do que a linguagem, assim, pode utilizar a mordida como expressão, em lugar de palavras.

Incentivar o uso da palavra para negociações ou para expressão de sentimentos nessas ocasiões de conflitos é instrumentalizá-la, é ajudá-la a despertar para a fase seguinte para o controle das emoções e para o desenvolvimento da fala. Podemos dizer, por exemplo: “Você ficou brava com fulano porque ele pegou seu brinquedo? Então diga para ele que agora você está brincando!”

Essa ação corporal faz parte de um aprendizado de cunho social que demanda certo tempo para ser internalizado pelas crianças. Dentro dessa fase, quanto menor a ansiedade que gerarmos mais tranqüilamente ela passará.

No entanto, precisamos deixar claro para aquelas que mordem que esse seu ato não é positivo, que enquanto adultos não podemos permitir que elas machuquem outras crianças. Devemos ensinar a consequência da ação, mostrando que quando machucamos um amigo é necessário ajudá-lo.

Qual é o procedimento da Escola Bosque das Letras diante das situações de mordida?

Diante de uma situação de mordida, entendemos que tanto aquele que foi mordido como o que mordeu, ambos necessitam de nossa atenção. Neste sentido, buscamos atuar de duas formas:

1º. Acolhendo as crianças envolvidas e cuidando daquele que foi mordido em parceria com a criança que praticou a mordida. Neste momento, o educador sinaliza ao mordedor que a sua reação provocou dor no colega e que esta não foi uma maneira bacana de se colocar.

2º. De maneira preventiva, buscamos refletir sobre as dificuldades que as crianças estariam apresentando tanto para se relacionar, para combater, para se expressar ou até para se defender. Seja para um carinho e um consolo, seja para que o ajudemos a enxergar outras maneiras de expressar desconforto e descontentamento. Orientamos a criança a utilizar a comunicação verbal: “Eu não gostei” ou “Agora é a minha vez”.

Precisamos ressaltar que o referencial do adulto é muito importante. Por causa do vínculo afetivo que o une à criança, o adulto será o modelo onde ela buscará as formas socialmente aceitáveis para negociar a posse de um objeto, a sua vez de brincar, como também a forma correta de expressar sentimentos e desejos.

Em grupo, verificamos qual momento social a criança está vivendo e se está bem adaptada. Conversas na hora da roda, atividades coletivas de sensibilização da boca, oportunidade para compreensão da força dos dentes como morder alimentos resistentes, são alguns dos recursos que utilizamos no nosso trabalho.

Também envolvidos nessa questão, temos os pais dos alunos que também precisam de acolhida. Não é fácil receber a notícia de que seu filho foi mordido, muito menos conviver com algumas marcas no seu braço. Algumas vezes chegam a perguntar: “Quem fez isto com meu filho?” Quando isto acontecer, os educadores procurarão colocar a situação de uma forma clara, porém sem nomear, para não expor ninguém desnecessariamente.

Do outro lado estão os pais da criança que mordeu. Eles poderão se constranger ou ficarem aflitos com o acontecido. Para todos, nossos educadores e coordenação oferecerão apoio para ajudar a entender e a superar essa fase pela qual estão passando as crianças.

Em suma, as mordidas são manifestações que podem acontecer durante uma fase do desenvolvimento infantil. Enquanto adultos, podem ficar atentos ao contexto, às dificuldades e intervir sempre que necessário, mostrando opções mais adequadas para a criança se expressar ou buscar o que quer.

Nesse sentido, buscamos também estabelecer uma relação de parceria com os pais, que possam ajudar seus filhos em casa a sinalizarem seus descontentamentos e desejos através da fala, evitando com isso o uso da mordida.

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