Veja o diálogo entre a coordenadora e professora de Yoga da Bosque das Letras Daniela Onisanti e a educadora Carmen Orofino, da Rede Pikler Brasil

A pandemia do Covid-19 trouxe diversos desafios para sociedade, que envolve desde a questão da doença em si e o risco à vida, como também provocou reflexões sobre hábitos pessoais, comportamentos sociais e a maneira que nos relacionamos com o tempo.

“O tempo de cada um: podemos refletir que somos todos indivíduos dentro do coletivo. Em casa, somos uma pequena comunidade, em que cada um tem suas singularidades e características. E como é viver em casa, em família, respeitando o espaço de cada um?” questiona a educadora Carmen Orofino, que em tempos de distanciamento social transformou os encontros reais em virtuais, como aconteceu no dia 15 de maio durante a transmissão ao vivo no perfil do Instagram da Bosque (disponível no IGTV para assistir quando quiser).

O tempo, para os pais com filhos, parece ser ainda mais escasso e valioso. É preciso dar conta de tudo nas 24 horas do dia, sete vezes por semana: trabalho, sustento da família, cuidados com as crianças, a casa… Logo, os espaços do lar misturam-se em uma junção de escritórios, consultórios e brinquedotecas. Os afazeres do cotidiano, como a preparação das refeições e as tarefas domésticas, passam a ser quase infinitas, com isso ‘nosso’ próprio tempo parece não existir mais.

“Recebo relatos de mães de crianças pequenas que não conseguem mais ir no banheiro sozinhas ou fechar a portas,” conta Carmen. O ‘tempo de cada um’ é conquistado com respeito, cuidado, atenção e autonomia, onde adultos têm a responsabilidade de garantir segurança e estabilidade às crianças, que por sua vez, após receberem a atenção necessária dos adultos, necessitam de uma rotina estruturada e liberdade para serem capazes de desenvolverem-se naturalmente.

“A primeira reflexão é por que devemos distrair as crianças o tempo todo? Distrair do que?” pergunta-se Carmen que afirma que toda criança é ‘potente’ e dotada de capacidade psicomotora para brincar e evoluir com as ‘distrações’ existentes ao redor.

Muitas vezes, os pais acabam se cobrando ou culpando por ‘ter que fazer muitas coisas com as crianças’, acreditando que elas não estão aprendendo o suficiente, principalmente, nesta época de confinamento. “A própria vida e o mundo por si só são interessantes para as crianças. Estar no mundo e prestar atenção em cada detalhe do que acontece é a vida da criança. Desde as pequenas situações, como por exemplo, explorar com os dedos os furos do armário ou apenas observar o pelo de um gato, ela já está aprendendo. O mundo da criança é repleto de reflexões e descobertas,” afirma Carmen.

“O adulto esquece muitas vezes de contemplar. Já a criança consegue aproveitar cada momento no tempo dela,” complementa Daniela Onisanti. Os pais precisam ter paciência, compreensão e tranquilidade para evitar interferências na criação dos filhos.

No vídeo ‘Caminhando com Tim Tim’, Valentim, aos 1 ano e 4 meses, “tem ensinado que o tempo é senhor de delicadezas, desafios, novidades constantes e intermináveis,” diz a mãe Genifer Gerhardt, que narra o filme após observar o mundo de descobertas do menino no percurso de duas quadras até a casa de sua avó.

Os pais não precisam ter a responsabilidade de ‘ensinar a criança o tempo todo’. “ precisam dar segurança e estabilidade nos momentos que as crianças realmente precisam, como por exemplo, na hora de dar um banho ou fazer uma refeição, sem que estejam distraídos com outras coisas. Essa presença dos pais gera confiança nas crianças,” afirma Carmen. É através dos cuidados que os vínculos são fortalecidos. Quando o adulto interage com a criança, dialogando, solicitando a sua participação, ela se sente percebida e respeitada e conseguirá brincar com mais autonomia e liberdade.

É fundamental criar um ambiente seguro, com coisas interessantes ao seu redor e uma rotina organizada, assim irá perceber o tempo que tem para cada atividade, seja sozinha ou junto com os pais.

“Os pais precisam acreditar no potencial das crianças para brincarem sozinhas. Os adultos precisam validar e legitimar o desenvolvimento e as conquistas das crianças. O bebê, por exemplo, tem toda a potência para investigar, explorar e criar as próprias brincadeiras com objetos que ela julga ser interessante, promovendo o próprio desenvolvimento,” assegura Carmen que atua no acompanhamento de bebês em seu desenvolvimento motor, ensino de danças e artes integradas para as crianças e formação de educadores.

Rotina e previsibilidade

“Quando temos o olhar individual para os cuidados da criança, conversando com ela enquanto cuidamos, explicando o que está sendo realizado com carinho e cuidado, fortalecemos a segurança dela e consequentemente incentivamos a autonomia, pois ela se sentirá potente, capaz de realizar. Também saberá que o adulto a apoia e está junto com ela,” explica Carmen.

“A rotina traz segurança para criança. Ela consegue prever o que fará a seguir e com isso se “separar” da mãe e pai porque eles o “preenchem” quando não estão juntos. Neste momento, o adulto precisa tranquilizar-se também,” diz Carmen sobre a influência da ansiedade, angústia e preocupação dos pais em meio a pandemia, o que acaba refletindo diretamente nas crianças.

Com tudo isso, a pergunta que devemos fazer é: como os adultos estão conseguindo lidar com os desafios da atualidade?